Em Busca de uma Tradição Inventada

Autor: Françoise Jean de Oliveira Souza
Fonte: História Viva

A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.

Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando-o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.

A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma ideia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.Leia mais »

O silêncio, voz da Iniciação

Autor: Alain Pozarnik
Tradução: José Filardo
Fonte: Bibliot3ca

Embora apreciadores da beleza do silêncio, seja durante um passeio ao ar livre, andando na rua, trancados no interior de nosso veículo ou dentro de nossa casa, nós escutamos avidamente uma música gravada, um programa de televisão ou de rádio. Enquanto parte de nós sonha com a calma, paz e profundidade, paradoxalmente outra parte foge do silêncio e nos arrasta para o mundo do tumulto e barulho.

De um lado, somos fascinados pela grandeza potencial do silêncio, mas por outro, os sons dos nossos mecanismos de pensamento e emoções preenchem automaticamente o nosso espaço interior. Eles nos impedem de nos escutar, de nos ver, de nos aprofundar, de nos encontrar face a face conosco. Nós somos infiéis à condição de nossa humanização. Nossos pensamentos e emoções agitam-se perpetuamente. Uns nos ocupam ou nos preocupam; outros nos fazem vibrar. Ambos nos hipnotizam e nós procuramos ali, a perspectiva de uma solução para os nossos problemas, ou uma esperança de felicidade para nossa solidão. Estamos tão acostumados e identificados com suas produções ou suas autoproduções que acabamos por acreditar que nós somos os nossos pensamentos e nossas emoções e que, sem eles, nossa vida perderia sua intensidade ou simplesmente não mais existiríamos. Seus silêncios, o silêncio nos assustam. Quando não ouvimos mais a agitação barulhenta da presença de nossos pensamentos ou de nossas emoções, temos uma terrível sensação de vazio, de nada, de morte, e fornecemos o mais rapidamente possível aos nossos mecanismos emocionais e intelectuais todos os tipos de alimentos oferecidos pelo fast-food da vida. Para alimentar suas máquinas, e nos dar a impressão de existir, nós lhes oferecemos não importa qual alimento interno ou externo que eles engolem avidamente. Mas, ao fazer isso, tornamos superficiais estes ruídos ambientais. Eles habitam em nós, nos preenchem e nos ensurdecem. Nós nos tornamos incapazes de ouvir a vida além deles, aquela existente mais profundamente em nós.Leia mais »

Arte Royal

Autor: Nuno Raimundo
Fonte: A Partir Pedra

Era de noite…
e debaixo de uma acácia que me era conhecida
eu repousava.
Reparei que na abóbada celestial flamejava uma estrela,
e que por ser tão bela, certamente que, seria obra de um sapiente geômetra.
Que com a força do seu punho a cinzelou e no céu a estabeleceu…

É nestes momentos, de rara nostalgia, e vislumbrando a natureza que me rodeia,
que sinto que quase não sei ler nem escrever,
e que dificilmente conseguirei soletrar o quer que seja…
Ou não fossem as palavras que ficam, por vezes, por dizer,
serem tantas como as espigas dos nossos campos;
e que por isso, por vezes, me parece que a carne se me desprega dos ossos…

Depois, acordei e vi que a luz me inundava o quarto
e que tudo tinha sido um mero sonho.
Um sonho bom…


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A Maçonaria e o legado dos alquimistas

Autor: João Anatalino
Fonte: O Malhete

Uma palavra sobre a alquimia

Cabe aqui uma palavra sobre a alquimia. Simultaneamente arte, técnica e ciência do espírito, essa misteriosa ocupação tem desafiado a argúcia dos historiadores, provocado perplexidade nos cientistas e alimentado a imaginação dos amadores do insólito desde tempos imemoriais. Fonte inesgotável de tesouros literários, rendeu algumas obras-primas da literatura mundial, entre os quais o clássico de Rabelais, As Aventuras de Gargântua e Pantagruel. Segundo alguns autores, os romances do Graal são alegorias alquímicas que procuram transmitir aos adeptos da arte de Hermes o seu magistério. Inspirou também famosos contos de fadas, como O Gato de Botas, Ali Babá e os Quarenta Ladrões, O Pequeno Polegar, As Viagens de Guliver, etc… e algumas boas obras modernas como as estórias de Harry Potter, O Alquimista, de Paulo Coelho, os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques e outros. Segundo Pawels e Bergier, mais de cem mil livros foram dedicados a essa prática, o que no mínimo a eleva a fenômeno cultural dos mais significativos.1Leia mais »

O silêncio do maçom

Autor: Desconhecido
Tradução: Juarez de Oliveira Castro
Fonte: A∴ e R∴ L∴ S∴ Alferes Tiradentes, nº 20

Aquele que pretenda escutar e compreender a voz do silêncio tem que saber da perfeita atenção da mente em assuntos de índole interna.
– Provérbio Hindu

Meus Irmãos, nesta ocasião vos peço, respeitosamente que guardeis silêncio; assim achareis a correta disposição de entender os legados de uma virtude sem par.

Para que entendais corretamente o significado do silêncio para o maçom devemos acudir a sua definição profana, indicando que é a privação voluntária da faculdade de falar. E em verdade, quase todos sabemos falar, mas poucos sabemos calar. Por ele, saber calar a língua e os sentidos é uma virtude de Deus.Leia mais »

A incrível história de como os Cavaleiros Templários ‘inventaram’ os bancos

Autor: Tim Harford
Fonte: BBC

Na Fleet Street, uma das mais movimentadas do centro de Londres, a dez minutos a pé da Trafalgar Square, existe um arco de pedra pelo qual muita gente pode passar e viajar no tempo. Um pátio tranquilo leva a uma capela estranha, circular, e a uma estátua de dois cavaleiros em cima de um único cavalo. A capela é a Temple Church, construída pela Ordem Dos Templários em 1185, quando ficou conhecida como a “casa londrina dos Cavaleiros do Templo”. Mas a Temple Church não tem apenas uma importância arquitetônica, histórica e religiosa. Ela também foi o primeiro banco de Londres.

Os Cavaleiros Templários eram monges guerreiros. Era uma ordem religiosa, com uma hierarquia inspirada na teologia e uma missão declarada – além de um código de ética –, mas também um exército armado e dedicado à “guerra santa”. Mas então como eles chegaram ao negócio dos bancos?Leia mais »

Considerações sobre o Rito Moderno ou Francês

Autor: Antonio Onias Neto1
Fonte: Bibliot3ca

Muito se critica e pouco se conhece a respeito do Rito Moderno ou Francês. Uma das mais infantis acusações (?) ou afirmativas gratuitas que se faz sobre o Rito é ser ele ateu. É lamentável que maçons, que deveriam conhecer um pouco de filosofia e teoria do conhecimento, façam confusão entre ateísmo e agnosticismo. O Rito Moderno, por saber que a atitude filosófica da Maçonaria é a pesquisa constante da verdade, e por outro lado, ao ver que a verdade, para que seja considerada em todo o seu sentido, deve ser absoluta e infinita, abraça a corrente de pensamento que reconhece a impossibilidade do conhecimento do Absoluto pelo homem em sua finitude e relatividade, ou seja o agnosticismo. Afirmando assim uma posição de humildade perante o Absoluto, o que deveria ser característica de todo Maçom.

Acrescente-se mais que o Gnosticismo, como teoria da possibilidade de conhecimento (não confundir com os chamados “Gnósticos” do início da Era Cristã), afirma que é possível conhecer o absoluto. Ora, o Ateísmo, ao afirmar categoricamente a inexistência de Deus, pertence à corrente gnóstica, posto que, nessa assertiva, mostra ser possível conhecer o Absoluto, donde podemos concluir que o ateu jamais será agnóstico e o agnóstico não pode ser ateu, pois suas teorias da possibilidade do conhecimento se chocam frontalmente.Leia mais »

O DNA Maçônico

Autor: José Maurício Guimarães
Fonte: O Malhete

O ano 2016, um dos mais difíceis – senão o mais difícil para o Brasil – chega ao fim. E permanece a pergunta: a democracia republicana, como posta em prática, tem garantido a ordem e o progresso de nossas instituições? E a maçonaria que praticamos – cópia equivocada dos sistemas políticos republicanos – contribuiu para tornar feliz a humanidade, combatendo a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, promovendo o bem-estar da Pátria?

A maçonaria é uma criação humana fundada nos princípios tradicionais da liberdade, igualdade e fraternidade entre as pessoas. Essa tríade, composta pela independência legítima dos cidadãos e das nações, pela submissão às mesmas leis, direitos e obrigações assim como pela harmonia entre os que lutam por uma mesma causa, é que torna nossa Ordem um organismo vivo.Leia mais »

A Geometria e o Número na Arte Real (Parte II)

Autor: Marc Garcia
Tradução: Sérgio Koury Jerez
Fonte: O Ponto Dentro do Círculo

Diz o Gênese que Deus concluiu a Criação em seis dias, “e repousou no sétimo dia de todo o labor que fizera”1. O sete simboliza o reencontro, no plano da Criação, da Unidade imutável que é sua origem e síntese, o que se expressa aritmeticamente mediante a soma dos sete primeiros números inteiros: 7 = 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 = 28 = 2 + 8 = 10 = 1 + 0 = 1. Também se diz que o sete é o número da Formação, consequência imediata das distinções que nossa mente estabelece entre as coisas criadas – representadas pelo senário – que aparecem por isso revestidas de formas.

A construção do heptágono e da estrela de sete pontas, imagens simbólicas do septenário, expressa geometricamente a observação exterior, se é que se pode chamar assim, que a mente efetua da manifestação projetando sobre ela as formas2. Para dividir uma circunferência em sete partes iguais e assim determinar os vértices de um polígono regular inscrito de sete lados, há que traçar um diâmetro e dividi-lo em sete segmentos de igual comprimento. Em seguida, com raio igual ao diâmetro desenhado e centros nos dois extremos deste, se abrem dois arcos circulares que se cortam em dois pontos exteriores à circunferência. A reta que passa por um destes pontos e pela segunda das seis divisões marcadas sobre o diâmetro com o fim de dividi-lo em sete partes iguais, corta a circunferência em dois pontos. Tomando a distância entre o ponto mais próximo à segunda divisão do diâmetro e o extremo do diâmetro que se acha mais próximo de tal ponto, e usando-a sete vezes como corda da circunferência, achamos os sete vértices do polígono inscrito3. O heptágono se constrói unindo pares de vértices contíguos, enquanto que a estrela de sete braços se obtém traçando uma poligonal que passe pelo primeiro de cada três vértices (isto é, unindo o primeiro vértice com o quarto, o quarto com o sétimo, o sétimo com o terceiro, etc.), ficando fechada ao cabo de três circulações completas.Leia mais »

A Geometria e o Número na Arte Real (Parte I)

Autor: Marc Garcia
Tradução: Sérgio Koury Jerez
Fonte: O Ponto Dentro do Círculo

A Maçonaria encarna uma via iniciática por meio da qual ainda é possível, num Ocidente obscuro e enfermo, vincular-se efetivamente à Tradição Unânime e Primordial. Trata-se de uma Arte na qual foram purificados e endossados símbolos, ritos e mitos de ordem cosmogônica que reis, guerreiros e homens de ofício reconheceram, desde tempos imemoriais, como suportes para a realização metafísica.

O neófito iniciado nos mistérios da Arte Real recebe uma influência espiritual que opera sua regeneração psíquica, isto é, seu renascimento ou tomada de consciência de si mesmo como homem verdadeiro. Este despertar corresponde simbolicamente a um percurso de um ponto de uma circunferência até seu centro, e também a uma conta ao inverso, que parte do denário e termina na Unidade, princípio gerador da multiplicidade implícita na década. Acabada a viagem pelos pequenos mistérios, começa, sem solução de continuidade, o trânsito pelos mistérios maiores, a ascensão pelo eixo imóvel em torno ao qual gira a roda do porvir, ou raio que, atravessando o Sol, traça a via que devolve o ser ao seio do Não-Ser.Leia mais »